05/10/2008 às 00:00:00 - Atualizado em 01/10/2008 às 19:06:10
Brasil 2008
Depois do Rio de Janeiro e São Paulo, tocou agora a Curitiba fazer o pingue-pongue com Bento Gonçalves, via vídeo-conferência, na avaliação dos vinhos nacionais da safra 2008. O certame da Associação Brasileira de Enologia (ABE) está em sua décima sexta edição. Até 2005 realizava-se exclusivamente no parque de convenções dessa cidade gaúcha. Nos últimos anos, dadas as facilidades de conexão televisiva em tempo real, avançou fronteiras, com diferentes cidades passando a compor a dobradinha. Sábado, em Curitiba, 150 pessoas compareceram ao salão do Hotel Rayon para conferir os vinhos finalistas na avaliação, acompanhando, através de dois telões, o evento em Bento Gonçalves - e vice-versa.
Pelo que seu viu e provou, a safra 2008 foi boa, mas longe do nível obtido em 2005. Na Serra Gaúcha, tempestades de granizo localizadas andaram prejudicando alguns vinhedos, e choveu muito durante a colheita. Ficou claro o predomínio das uvas Merlot e Cabernet Franc entre as tintas, e da Chardonnay entre as brancas. Foram dessas castas os melhores vinhos da avaliação. As principais vinícolas brasileiras participaram. Eram 62, a maioria do Rio Grande do Sul, mas havia também de Santa Catarina, Paraná, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais. As 317 amostras inscritas foram provadas, em sessões realizadas entre 11 e 29 de agosto, por um grupo de 78 enólogos, que selecionou as 16 mais representativas nas diferentes categorias.
Nos vinhos brancos, as melhores amostras foram as das vinícolas Piagentini (Viognier), Salton (Riesling Itálico), Don Guerino e Valduga (Chardonnay), Fazenda Ouro Verde (Moscato Itália) e Salton (Moscato Giallo). Nos tintos, a Aurora e a Valmarino (Cabernet Franc), a Rasip Agopastoril e a Miolo (Merlot), a Catafesta (Ancellotta) e a Gheller (Tannat). As amostras de vinhos base para espumante que mais impressionaram foram as da Moët Henessy e da Perini. Houve, ainda, a categoria de vinho rosé, onde se destacou a mescla de Merlot e Cabernet Sauvignon da vinícola Montes Lemos, e a de vinho tinto jovem, que contemplou o Pinot Noir da Fortaleza do Seival.
Esses vinhos, ainda amostras de barrica, somente serão engarrafados nos próximos dois anos, como varietais ou em mesclas. Apenas aí os produtores vão decidir como posicioná-los nas linhas de comercialização. Todos mereceram notas acima de 86 pontos. Surpreendeu a ausência da Cabernet Sauvignon na tropa de elite. Em contrapartida, chamaram atenção as duas amostras de Merlot, uva cotada como o novo emblema da vinicultura nacional. Identificaram-se, ambas, nos aromas de framboesas maduras, licor de cassis e avelãs, e no corpo equilibrado e consistente. A Merlot amadurece mais cedo, expondo-se menos às chuvas de verão que não raro põe a perder as colheitas no Serra Gaúcha.
O certame da ABE serviu como palanque para as vinícolas desfilarem suas insatisfações. O setor se acha injustiçada pelo Governo, que, na opinião das lideranças, cobre de regalias as vinícolas chilenas e argentinas nas importações, colocando o produto nacional em desvantagem competitiva. Hoje, 80% do mercado de vinhos finos e espumantes é tomado pelos importados. Alem disso, há o contrabando, que, no ano passado, permitiu o ingresso ilegal de 15 milhões de litros de vinhos no Brasil. E, para completar, a questão da valorização do real perante o dólar, que barateou as importações e complicou a vida de quem exporta.
"O vinho, argumentam, transformou-se na moeda concedida aos países vizinhos para equilibrar suas balanças comerciais no Mercosul". As vinícolas brasileiras reclamam da falta de iniciativas oficiais para a promoção no mercado internacional. Nossas embaixadas, por exemplo, nem vinhos nacionais servem nas recepções. Foi bastante aplaudida a proposta - pura ironia - de que, no próximo ano, a avaliação nacional da ABE seja em link com as representações do país no exterior.
Enodicas
+ A Expand Curitiba retoma seu curso básico sobre vinhos, ministrado pelo sommelier Roberto Cartaxo. Serão duas aulas, dias 6 e 7 de outubro, no horário das 20:00 às 20:30 horas, versando sobre a história da bebida, sistemas de produção, harmonização com a comida e técnicas de degustação. Inscrições (R$ 150), limitadas a 24 vagas, pelo telefone 3078-1111.
+ O produtor italiano Marco Bacci estará em Curitiba, no próximo dia 10, para uma apresentação de seus rótulos na Vino Batel. Cinco serão degustados, entre eles o Regina di Renieri Syrah IGT e o Chianti Riserva Berardo Castello di Bossi, o primeiro com 93 e, o segundo, com 91 pontos dados por Robert Parker. Queijos diversos e um risoto de funghi porcini serão os parceiros desses vinhos. Reservas (R$ 120) pelo telefone 3029-9988.
+ Em franca expansão, o grupo Vino deve abrir, nesta temporada, uma loja na praia de Jurerê Internacional - certamente, em se tratando de balneários, o mais elevado padrão de renda de Florianópolis. Está se preparando, também, para inaugurar restaurante e loja no Rio de Janeiro. Os novos estabelecimentos se somarão aos que já possui em Curitiba, Londrina e São Paulo.
+ Uma forma saborosa de ajudar o Hospital Pequeno Príncipe a aumentar sua capacidade de atendimento é participar da Macarronada das Estrelas, no próximo dia 13, no restaurante Mezza Luna, de Santa Felicidade. Preparado e servido por artistas da TV Globo, o evento reverterá a renda (R$ 50 o convite) para a principal casa hospitalar infantil de Curitiba. O objetivo é criar 100 novos leitos, que permitirão o atendimento anual de mais seis mil crianças. A propósito: chegou às livrarias o livro Deliciosas Receitas, editado pelo Centro Europeu de Curitiba. As vendas se destinarão ao Setor de Queimados do Hospital Evangélico. Custa R$ 20 e propõe 300 receitas de pratos.
+ Um grupo de dez jornalistas estrangeiros visitou, na última semana, o Vale dos Vinhedos. Gostaram muito dos vinhos brancos e dos espumantes, sobretudo os feitos com a uva Moscatel, além dos tintos à base de Tannat e Cabernet Franc, cepa que está sendo resgatada depois de longo esquecimento. Os jornalistas acharam, porém, que nosso vinho carece de uma regulamentação mais precisa sobre os conceitos de reserva e gran reserva e que as vinícolas deveriam reduzir a produção dos vinhedos para implementar a qualidade. Também consideraram nossos rótulos muito caros.
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