13/04/2008 às 00:00:25 - Atualizado em 19/07/2008 às 16:45:40

Pacalet, o sem terra

cartadevinhos130408.jpgPhilippe Pacalet não tem nenhum palmo de terra para chamar de seu, mas jamais poderia recorrer a uma instituição como o MST na região onde vive e trabalha como vitivinicultor, a Borgonha. A reforma agrária já aconteceu por lá há muito, nos tempos da revolução francesa, quando as propriedades da Igreja e da aristocracia foram distribuídas entre os trabalhadores. Napoleão, histórico desafeto dos religiosos, fez questão de, pessoalmente, presidir a partilha do famoso Clos de Vougeot, pertencente à Abadia de Cîteaux. A Borgonha se apresenta desde então como uma colcha de retalhos – milhares de pequenos vinhedos e reinado de castas como a Pinot Noir e a Chardonnay. Os hectares são valorizadíssimos, acessíveis somente a herdeiros ou donos de minas de ouro. Como não está em nenhum dos casos, Pacalet buscou uma via alternativa. Ele veio a Curitiba para apresentar seus vinhos em evento no Restaurante Terra Madre. Na ocasião, contou seus segredos.

A vinicultura é tradição na família. Seu tio, Marcel Lapierre, que o acompanhou no circuito pelo Brasil, é produtor na região de Beaujolais e considerado um dos apóstolos dos chamados vinhos naturais. Pacalet formou-se em biologia, química e enologia. Trabalhou primeiro com Lapierre, depois no Domaine Prieuré Roch. O alvo, entretanto, era a vinícola própria. Sem recursos para adquirir vinhedos, decidiu aluga-los, o que, de certo modo, foi vantajoso, pois lhe permitiu atuar por toda a Borgonha, dos tintos de Pommard aos brancos de Chablis. Pratica uma filosofia de intervenção mínima nos processos naturais que ditam o nascimento dos vinhos. Evita leveduras de laboratório, controle de temperatura na fermentação e filtragens. Tem solene antipatia por barricas de carvalho novas, que “modificam o caráter do vinho, deixando-o com sabor adocicado”. Do estoque de 150 mil barricas, apenas 10% são renovados anualmente.

Em poucos lugares o conceito do terroir – a busca do ajuste perfeito entre solo, micro-clima, cepa vinífera e técnicas de elaboração dos vinhos – é tão cultuado como na Borgonha. A província se divide em numerosas pequenas comunas, destacando-se as que ocupam as colinas ao norte e sul da cidade de Beaune, numa extensão de 100 quilômetros. Este é o território de Pacalet, que opera com vinhas em Meursault, Puligny-Montrachet, Corton-Charlemagne, Monthélie, Saint-Aubin, Pommard, Chambole-Musigny, Nuits-Saint-Georges, Gevrey-Chambertin e, mais ao norte, Chablis. A vinificação é feita em Beaune, numa cantina própria, recentemente comprada da família De Montille. São instalações amplas, construídas no século 19, junto à estação ferroviária.

Pacalet faz bem o estilo dos produtores de sua região. Veste-se de forma casual, é simples, direto, nunca gravatas nem cerimônias. Apresentou três vinhos no Terra Madre. Começou pelo básico Bourgogne Rouge 2006, feito com uvas Pinot Noir de diferentes comunas, acompanhante do arroz de perdiz ao forno. Depois, valorizando o coelho na caçarola, o Chambolle-Musigny 2005, tinto com pedigree e denominação de origem. Finalmente, o sedutor Lavaux Saint-Jacques 2005, premier cru de Gevrey-Chambertin. Ótima fruta, elegante, aromas de cassis e framboesa. Fez as honras ao medalhão de filé ao foie gras.

Os vinhos de Pacalet têm alma, personalidade, não são – como ele gosta de dizer – “meras commodities”. Chegam ao Brasil importados pela World Wine (em Curitiba, na Vino Champagnat). O preço é salgado, como, de resto, quase tudo que vem da Borgonha. O Bourgogne Rouge, por exemplo, está a R$ 125. Os que produz em Pommard – comuna onde a Pinot Noir atinge maior concentração – estão entre os mais acessíveis, e são ótimos. O tintos de 2005 provados confirmaram a excelência dessa safra. Mas o produtor avisa que a de 2007 (à exemplo de 2006) não foi tão bem. O verão quente e chuvoso derrubou a qualidade das frutas. A solução, portanto, é se garantir com a edição de 2005 que, pelo visto, logo estará esgotada.

Enodicas

+ O numeroso fã clube dos vinhos da Argentina têm um encontro imperdível nesta próxima terça-feira, no horário das 18 às 22 horas, no Buffet do Batel (Alameda Dom Pedro II, 183). Cerca de 40 vinicultores do vizinho país estarão lá, servindo o que de melhor fazem. Entre eles, nomes como O. Fournier, Catena, Zuccardi, Suzana Balbo, Nieto Senetiner, Kaiken e Terrazas. O evento, promovido pela Wines of Argentina, entidade representativa das vinícolas platinas que operam nos mercados internacionais, está aberto aos enófilos, mas os convites (R$ 140) serão apenas 400.

+ E por falar em Zuccardi: a vinícola lançou uma inovação em turismo, a degustação de espumantes nas alturas, sobrevoando em balão os vinhedos da bodega, na região de Maipú, em Mendoza. O passeio aéreo é sempre na primeira hora da manhã, com meteorologia mais favorável. O programa se chama “Veni a Volar” e inclui café da manhã prévio no restaurante da Zuccardi. O balão atinge altura máxima de 60 metros.

+ O novo objeto de desejo dos apreciadores de tintos e brancos é um pequeno computador, no formato de telefone celular, com banco de dados reunindo milhares de informações sobre vinhos. Traz o ranking das safras nos diferentes países e regiões, qualifica rótulos e produtores, indica as fases de envelhecimento e harmonizações. Um verdadeiro sommelier de bolso, que atende pelo nome de Pocket Wine Buying Guide. Importação da Enoteca Fasano.

+ Pode acabar a liberdade, hoje concedida às bebidas com dosagem alcoólica de até 13° na escala Gay-Lussac, de divulgar suas marcas pelos meios de comunicação. Várias entidades ligadas à saúde entregaram nesta semana, ao presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, documento com 600 mil assinaturas, exigindo que a proibição da propaganda comece a partir 0,5°, o que inclui vinhos e cervejas. O projeto de lei já está tramitando.

+ Em 2007 foram 15 mil visitantes, mas, neste ano, os organizadores acreditam que a Expovinis, principal feira latino-americana de vinhos, atrairá um público ainda maior. O evento acontece entre os próximos dias 28 e 30, nas instalações do Transamérica Center, em São Paulo, simultaneamente com a Brasil Cachaça e a Epicure 2008, esta uma feira direcionada aos apreciadores de charutos.

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