Condutas simples ajudam na boa cicatrização da pele lesionada

Redação Paraná-Online Publicação 15/08/2003 - 17h00 Atualizado 19/01/2013 - 20h40

Pode ser um tombo leve, comum durante a infância, ou acidentes mais sérios como queimaduras e mordidas de animais. Independente da gravidade do ferimento, toda vez que a pele é lesionada, requer cuidados adequados. Caso contrário, o processo de recuperação será mais doloroso, o local machucado poderá sofrer prejuízos irreparáveis – como a perda da mobilidade total – além da nova pele nascer com até 50% menos qualidade que a original.

Segundo a enfermeira estomaterapeuta Gisele Regina Azevedo, docente da Faculdade de Enfermagem da PUCSP e diretora da Clínica Sinergia em Sorocaba (SP), a população leiga acredita que adotar determinados procedimentos é correto, quando na verdade prejudicam – e muito - o processo de cicatrização. Um desses exemplos é a crença de que é bom deixar o machucado bem seco. “Isso é um dos erros mais graves”, aponta Gisele. Outro ponto é o hábito de lavar os ferimentos com água fria no momento da troca dos curativos. “Essa conduta retarda a recuperação do tecido em quase quatro horas”, revela. As famosas “casquinhas” que se formam sobre os machucados é um sinal de que algo está errado. “O ideal é que o local lesionado esteja úmido, com os tecidos apresentando coloração natural. As crostas secas significam que o lugar ressecou, não recebeu plena oxigenação de dentro para fora e, portanto, a regeneração se tornará mais lenta”.

Segundo Gisele Azevedo, para tratar adequadamente as feridas é preciso, antes de mais nada, compreender a função da pele. “Esse tecido (a pele) serve para impedir a perda de líqüidos pelo organismo e como um instrumento de sensibilidade à dor cuja função é informar o cérebro das agressões externas”, explica. Assim, toda vez que se corta parte desse revestimento, abre-se uma porta sem que se tenha qualquer tipo de defesa natural como as existentes em outras entradas do corpo – nariz, ouvidos, olhos, etc. “Por isso, cada vez que se abre uma entrada não natural, precisa-se adotar certos cuidados”, diz. 

A cicatrização nada mais é que a formação de uma nova pele que ocorre através de um processo denominado  diferenciação celular. “As células que se encontram no fundo do machucado tendem a se deslocar para a superfície com o objetivo de fechar a ruptura dos tecidos. Para subirem, as células vão se diferenciando, assumindo novas características na tentativa de se igualarem às demais”. Para que esse processo migratório ocorra satisfatoriamente, é preciso que o leito (parte da pele onde houve a lesão) da ferida esteja úmido. Esse é o primeiro cuidado. “Nunca se pode deixar a ferida secar”, alerta a enfermeira. Portanto, a crendice popular de que é bom deixar as feridas abertas para secarem e formarem uma casquinha é totalmente errada e prejudicial à cicatrização.

Essas crostas, inclusive, retardam a cicatrização. “Cada vez que esse corpo é retirado, causa uma nova lesão que demandará em mais um processo de recuperação para o organismo administrar”, reforça. Na eventualidade das incômodas casquinhas surgirem, devem ser retiradas por profissionais e jamais arrancadas. Para isso, existem produtos específicos – como os hidrogéis ou coberturas de absorção - que não causam traumas.

Retardar a cicatrização significa prejudicar – e muito – a nova pele. “Se uma ferida era para cicatrizar em dez dias, por exemplo, mas demora 20, isso significa que essa pele terá 30% menos elasticidade de tensão”. Caso esse processo hipotético demore mais dez dias, o novo tecido terá somente a metade da qualidade que teria originalmente”, conclui.

Quanto mais rápida a cicatrização melhor a qualidade da cicatriz, ou seja, a nova pele será mais fina e mais parecida com a original. Por isso, atualmente, a Medicina busca novas formas de acelerar esse processo. “Substâncias que já existem na pele e que são acionadas todas as vezes que ocorre uma lesão são o alvo dessas pesquisas”, conta a enfermeira, referindo-se aos fatores de crescimento de tecidos presentes no corpo humano. “Esperamos o resultado dessas pesquisas como uma solução para casos muito complexos de feridas como as que ocorrem em pessoas que sofrem graves queimaduras”.

Além do bom trato, uma boa cicatrização é conseguida com cuidados como alimentação e hidratação adequadas, repouso e condição emocional favoráveis. “A dieta ideal para a recuperação é a que contém boas doses de cobre, zinco, manganês, ferro, vitamina A e D, proteínas e carboidratos”.

Exceto na limpeza inicial, todas as outras não devem conter sabão. Outro dado importantíssimo é a temperatura da água utilizada para lavar a lesão nas trocas dos curativos. “É preciso que a água esteja a 36,5o ou 37o, que é a temperatura interna do corpo”. Caso não se obedeça a esse cuidado, haverá um choque térmico e a interrupção do processo de mitose (duplicação natural das células). “Isso implica em uma demora de 40 minutos para a área voltar à temperatura normal e mais cerca de três horas para a retomada do processo de mitose”, explica.

Primeiros cuidados

Tombos - Esfolamentos sem sangramento abundante ou lesões com pouca profundidade devem ser lavadas em abundância. Certamente, o ambiente era sujo, portanto, deve-se utilizar sabão para limpar bem o local. Isso ajudará a eliminar as bactérias que entraram no momento do acidente. Tentar manter a vítima calma, cobrir o ferimento com uma cobertura (gaze ou pano úmido e limpo) e secar em torno da lesão evitará infecções e ajudará no processo de cicatrização.

Queimaduras – Quando a queimadura for causada por produtos químicos, nunca se deve usar água para lavar o ferimento. Deve-se retirar o agente causador com um pano seco e levar o acidentado a um posto de atendimento especializado. No caso das queimaduras por calor (água quente, fogo ou brasa) é necessário que se lave o local com muita água e retirar os objetos de uso pessoal como anéis, pulseiras, colares e relógios. Caso não seja possível mergulhar a área afetada na água, deve-se colocar compressas de água fria e manter o local úmido até que seja feito o atendimento especializado. Nunca se deve usar qualquer produto sobre as feridas. Isso inclui pasta de dente, café e pomadas – que só podem ser indicadas depois do atendimento realizado por um profissional.

Mordidas – O local do ferimento deve ser lavado e escovado com água e sabão para retirar todos os vestígios da saliva do animal que mordeu a vítima e procurar uma unidade de saúde para receber as doses de vacinas antitetânica e anti-rábica.


Publicidade

Publicidade

Comente a notícia