Pode ser um tombo leve, comum durante a infância, ou acidentes mais sérios como queimaduras e mordidas de animais. Independente da gravidade do ferimento, toda vez que a pele é lesionada, requer cuidados adequados. Caso contrário, o processo de recuperação será mais doloroso, o local machucado poderá sofrer prejuízos irreparáveis como a perda da mobilidade total além da nova pele nascer com até 50% menos qualidade que a original.
Segundo a enfermeira estomaterapeuta Gisele Regina Azevedo, docente da Faculdade de Enfermagem da PUCSP e diretora da Clínica Sinergia em Sorocaba (SP), a população leiga acredita que adotar determinados procedimentos é correto, quando na verdade prejudicam e muito - o processo de cicatrização. Um desses exemplos é a crença de que é bom deixar o machucado bem seco. Isso é um dos erros mais graves, aponta Gisele. Outro ponto é o hábito de lavar os ferimentos com água fria no momento da troca dos curativos. Essa conduta retarda a recuperação do tecido em quase quatro horas, revela. As famosas casquinhas que se formam sobre os machucados é um sinal de que algo está errado. O ideal é que o local lesionado esteja úmido, com os tecidos apresentando coloração natural. As crostas secas significam que o lugar ressecou, não recebeu plena oxigenação de dentro para fora e, portanto, a regeneração se tornará mais lenta.
Segundo Gisele Azevedo, para tratar adequadamente as feridas é preciso, antes de mais nada, compreender a função da pele. Esse tecido (a pele) serve para impedir a perda de líqüidos pelo organismo e como um instrumento de sensibilidade à dor cuja função é informar o cérebro das agressões externas, explica. Assim, toda vez que se corta parte desse revestimento, abre-se uma porta sem que se tenha qualquer tipo de defesa natural como as existentes em outras entradas do corpo nariz, ouvidos, olhos, etc. Por isso, cada vez que se abre uma entrada não natural, precisa-se adotar certos cuidados, diz.
A cicatrização nada mais é que a formação de uma nova pele que ocorre através de um processo denominado diferenciação celular. As células que se encontram no fundo do machucado tendem a se deslocar para a superfície com o objetivo de fechar a ruptura dos tecidos. Para subirem, as células vão se diferenciando, assumindo novas características na tentativa de se igualarem às demais. Para que esse processo migratório ocorra satisfatoriamente, é preciso que o leito (parte da pele onde houve a lesão) da ferida esteja úmido. Esse é o primeiro cuidado. Nunca se pode deixar a ferida secar, alerta a enfermeira. Portanto, a crendice popular de que é bom deixar as feridas abertas para secarem e formarem uma casquinha é totalmente errada e prejudicial à cicatrização.
Essas crostas, inclusive, retardam a cicatrização. Cada vez que esse corpo é retirado, causa uma nova lesão que demandará em mais um processo de recuperação para o organismo administrar, reforça. Na eventualidade das incômodas casquinhas surgirem, devem ser retiradas por profissionais e jamais arrancadas. Para isso, existem produtos específicos como os hidrogéis ou coberturas de absorção - que não causam traumas.
Retardar a cicatrização significa prejudicar e muito a nova pele. Se uma ferida era para cicatrizar em dez dias, por exemplo, mas demora 20, isso significa que essa pele terá 30% menos elasticidade de tensão. Caso esse processo hipotético demore mais dez dias, o novo tecido terá somente a metade da qualidade que teria originalmente, conclui.
Quanto mais rápida a cicatrização melhor a qualidade da cicatriz, ou seja, a nova pele será mais fina e mais parecida com a original. Por isso, atualmente, a Medicina busca novas formas de acelerar esse processo. Substâncias que já existem na pele e que são acionadas todas as vezes que ocorre uma lesão são o alvo dessas pesquisas, conta a enfermeira, referindo-se aos fatores de crescimento de tecidos presentes no corpo humano. Esperamos o resultado dessas pesquisas como uma solução para casos muito complexos de feridas como as que ocorrem em pessoas que sofrem graves queimaduras.
Além do bom trato, uma boa cicatrização é conseguida com cuidados como alimentação e hidratação adequadas, repouso e condição emocional favoráveis. A dieta ideal para a recuperação é a que contém boas doses de cobre, zinco, manganês, ferro, vitamina A e D, proteínas e carboidratos.
Exceto na limpeza inicial, todas as outras não devem conter sabão. Outro dado importantíssimo é a temperatura da água utilizada para lavar a lesão nas trocas dos curativos. É preciso que a água esteja a 36,5o ou 37o, que é a temperatura interna do corpo. Caso não se obedeça a esse cuidado, haverá um choque térmico e a interrupção do processo de mitose (duplicação natural das células). Isso implica em uma demora de 40 minutos para a área voltar à temperatura normal e mais cerca de três horas para a retomada do processo de mitose, explica.
Primeiros cuidados
Tombos - Esfolamentos sem sangramento abundante ou lesões com pouca profundidade devem ser lavadas em abundância. Certamente, o ambiente era sujo, portanto, deve-se utilizar sabão para limpar bem o local. Isso ajudará a eliminar as bactérias que entraram no momento do acidente. Tentar manter a vítima calma, cobrir o ferimento com uma cobertura (gaze ou pano úmido e limpo) e secar em torno da lesão evitará infecções e ajudará no processo de cicatrização.
Queimaduras Quando a queimadura for causada por produtos químicos, nunca se deve usar água para lavar o ferimento. Deve-se retirar o agente causador com um pano seco e levar o acidentado a um posto de atendimento especializado. No caso das queimaduras por calor (água quente, fogo ou brasa) é necessário que se lave o local com muita água e retirar os objetos de uso pessoal como anéis, pulseiras, colares e relógios. Caso não seja possível mergulhar a área afetada na água, deve-se colocar compressas de água fria e manter o local úmido até que seja feito o atendimento especializado. Nunca se deve usar qualquer produto sobre as feridas. Isso inclui pasta de dente, café e pomadas que só podem ser indicadas depois do atendimento realizado por um profissional.
Mordidas O local do ferimento deve ser lavado e escovado com água e sabão para retirar todos os vestígios da saliva do animal que mordeu a vítima e procurar uma unidade de saúde para receber as doses de vacinas antitetânica e anti-rábica.
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