Bombinha injetável pode ser aposentada

Redação O Estado do Paraná Publicação 16/08/2006 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 21h04


No mundo, estima-se que entre 200 mil e 300 mil crianças nasçam com anemia falciforme anualmente.
O que uma criança de três anos com talassemia, um adolescente de 16 anos com anemia falciforme e um homem de 70 anos com síndrome mielodisplásica têm em comum? Todos possuem um tipo de anemia crônica e sofrem a conseqüência das freqüentes transfusões sangüíneas necessárias para prolongar suas vidas. Foi assim com Poliana: a partir de um ano de idade a menina já apresentava anemia. A partir dos três anos, sua rotina incluía freqüentes transfusões de sangue. Martha Pacífico, sua mãe, não gosta nem de lembrar do ritual pelo qual sua filha passou. “Uma vida de sofrimento e aceitação da doença”, define resignada.

Até hoje, perto de completar 33 anos de vida, Poliana precisa fazer uso de quelante, um medicamento que reduz o excesso de ferro da corrente sangüínea, situação que pode prejudicar órgãos vitais, como o coração, fígado, glândulas endócrinas e outros órgãos, podendo levar a morte. Hoje, a única maneira de retirar o excesso de ferro é mediante o uso de uma bomba injetora, cuja agulha fica fixa ao corpo do paciente por até 12 horas, de cinco a sete vezes por semana. O resultado final é satisfatório, mas o método impacta a qualidade de vida do paciente. “É um sacrifício enorme, principalmente para as mães que precisam picar seus filhos diariamente. Dessa forma os pacientes acabavam desistindo do tratamento, com aumento de risco dos efeitos tóxicos da sobrecarga de ferro”, constata a hepatologista pediatra Mônica Veríssimo.

Medicamento oral

De acordo com o hepatologista Antonio Fabron, muitos pacientes adquirem taxas elevadas de ferro no sangue devido à grande quantidade de transfusões a que são submetidos. O médico reconhece que essas constantes transfusões podem prolongar e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com doenças sangüíneas, porém, a cada transfusão o paciente também recebe ferro em excesso, que  começa a se acumular no organismo, já que o corpo não possui um mecanismo próprio para eliminá-lo. “Quando o nível de ferro fica alto demais ele passa a ser tóxico, principalmente ao fígado, glândulas endócrinas e coração”, explica.

O único tratamento eficaz para eliminar o excesso desse elemento e impedir tais complicações é a terapia quelante, cuja meta é eliminar o ferro proveniente das transfusões e reduzir o nível de ferro que já se acumulou. O primeiro medicamento oral de administração diária para a sobrecarga de ferro no organismo chega ao Brasil e pode trazer mais esperança aos pacientes e médicos. O Exjade, do Laboratório Novartis, garante eliminação eficaz do ferro do organismo. O medicamento é administrado apenas uma vez ao dia. “Com o novo medicamento esperamos que a eliminação de ferro do organismo tenha maior adesão dos pacientes, especialmente os pediátricos”, destaca Mônica Veríssimo.

Para Merula Steagall, portadora de talassemia e presidente da Associação Brasileira de Talassemia (Abrasta), “a chegada de um tratamento em forma de comprimido representa a realização de um sonho, pois aumentará o acesso ao tratamento, com a redução dos custos e, mais importante, fará com que as pessoas aceitem a terapia”, comemora.

Conheça as doenças que causam anemia crônica

Síndromes mielodisplásicas - São caracterizadas pela produção excessiva de células sangüíneas defeituosas. A doença atinge tipicamente pessoas a partir dos 60 anos e, em um terço dos casos, progride para leucemia aguda, um tipo fatal de câncer do sangue.

Anemia falciforme – A característica é uma deformação nos glóbulos vermelhos do sangue, o que causa uma obstrução nos vasos sangüíneos, dores e pode danificar tecidos e órgãos, além de levar ao Acidente Vascular Cerebral (AVC), se a obstrução ocorrer no cérebro.

Talassemia - uma doença sangüínea caracterizada pela deficiência na produção da hemoglobina, parte dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio. A doença está se tornando um problema de saúde pública, atingindo aproximadamente 15 milhões de pessoas em todo o mundo.


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