Saúde Pública: O preconceito potencializa as marcas da hanseníase

Redação O Estado do Paraná Publicação 15/12/2004 às 17:52:23 Atualizado 19/01/2013 às 20:49:00

O Brasil é o segundo país do mundo em número de casos de hanseníase (só perde para a Índia), uma doença milenar, de fácil tratamento e cura, mas que, com o decorrer dos tempos, tornou-se estigmatizada, fazendo com que seus portadores muitas vezes viviam à margem da sociedade. A cada ano são diagnosticados mais de 40 mil novos casos da doença. Apesar disso, em diversos estados brasileiros, entre eles o Paraná, a doença está em fase de eliminação. Quando diagnosticada precocemente, a cura da doença pode ser obtida entre seis meses e um ano. E o que é melhor: quase sempre sem deixar seqüelas. Apesar disso, a falta de informação e o preconceito prejudicam o tratamento e a reintegração na sociedade dos portadores da doença.

"Ao contrário da crença popular, o paciente em tratamento pode conviver com a família, no trabalho e na sociedade, sem qualquer restrição", garante a dermatologista Ewalda Von Rosen Seeling Stahlke, presidente da Associação Paranaense de Hansenologia. No entender da especialista, durante muitos anos, o medo de contaminação e a aparência desfigurada dos antigos doentes faziam com que eles não fossem tratados ou orientados adequadamente. "Essa falta de informação transformava a doença em um grave problema social", reconhece. Atualmente, os tratamentos contam com o apoio de equipes multidisciplinares que incluem médicos, psicólogos e assistentes sociais.

A hanseníase é causada pelo bacilo de Hansen (médico norueguês que o descobriu em 1673), um parente do agente causador da tuberculose. Ela pode afetar os nervos periféricos, que ligam o sistema nervoso central aos diversos órgãos internos e externos, podendo gerar incapacidade física. "As manifestações clínicas da hanseníase são resultantes de uma resposta do sistema imunológico à invasão do bacilo. O organismo evita a expansão do bacilo, mas destrói os tecidos e as áreas atingidas", explica Ewalda Stahlke.

Vencer o preconceito

O período de incubação, que vai do momento do contato até o aparecimento dos primeiros sintomas, é de cinco anos. A transmissão se dá diretamente de pessoa para pessoa, por meio das vias aéreas superiores, no convívio íntimo e prolongado da pessoa sadia com o doente (não tratado). A doença é diagnosticada por exames clínicos e confirmada por biópsia.

Para a médica, o diagnóstico da hanseníase costuma ser tardio devido ao paciente que apresenta uma mancha na pele não valorizar o problema, demorando a procurar auxílio médico. "Muitas vezes, ele acredita que se trata de algum tipo simples de micose", observa. Com isso, a estatística sobre a doença se mantém alta, já que um bom número de portadores pode transmitir a doença sem saber. "Um diagnóstico feito no início ajuda a cortar a cadeia de transmissão da doença e favorece o tratamento", explica a especialista.

No entender de Ewalda Stahlke, vencer o preconceito social, inclusive dos próprios pacientes, que tendem a se automarginalizar, é o grande desafio associado à hanseníase. Com o tratamento precoce e adequado, com a devida orientação e por meio de atitudes simples, como preservar hábitos de higiene pessoal, manter uma alimentação balanceada ou evitar a promiscuidade, entre outras, a médica acredita que os agravos físicos podem ser evitados e até curados.

Segundo Marcelo Távora Mira, professor da PUCPR e integrante de uma equipe

internacional de pesquisadores, que descobriram o gene que deixa a pessoa suscetível à hanseníase, esses componentes genéticos podem ser usados como modelo para entender outras doenças infecciosas como a tuberculose, por exemplo. Partindo do ponto zero, o grupo de pesquisadores descobriu a variação genética do gene que causa suscetibilidade à hanseníase. Agora, tentam descobrir como essa variação altera a célula, "um fato inédito na história da ciência", segundo Mira.

Para que o preconceito sobre a hanseníase não passe para outras gerações, é importante saber que:

· 90% das pessoas possuem resistência natural que deixa mínima a chance de se contrair a doença, mesmo estando em contato com seus portadores.

· Só os portadores da forma multibacilar são transmissores. E, ainda assim, o contato precisa ser íntimo e freqüente.

· O simples fato de ter dado início ao tratamento faz com que boa parte dos bacilos seja eliminada e com eles o risco de contaminação.

· Não se transmite o bacilo por meio de relação sexual.

Infográfico:

De 7 pessoas contaminadas, apenas uma oferece risco de passar a doença para outras pessoas.

De cada 8 pessoas que tiveram contato com ela, apenas duas podem contrair a doença.

Destas duas, apenas uma passará o bacilo adiante.


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