Histórias e curiosidades de Santos Dumont

Cintia Végas Publicação 22/10/2006 - 00h00 Atualizado 19/01/2013 - 21h06

Fotos: Chuniti Kawamura e
Evandro Monteiro/O Estado


Átila José Borges (abaixo) conta que aos 26 anos de idade, Dumont já tinha conquistado dois monumentos em sua homenagem na França.


Quando se fala em Alberto Santos Dumont (1873-1932), a maioria das pessoas lembra do avião 14 Bis, cujo centenário do primeiro vôo será comemorado no próximo dia 23; do relógio de pulso, inventado devido à uma necessidade do aviador de olhar as horas sem precisar tirar as mãos das cordas que dirigiam seus balões; e do chapéu amassado, criado meio sem querer, durante um quase acidente aéreo, mas que virou moda na França no início do século XX.

Porém, existem muito mais histórias e curiosidades sobre a vida e as obras do homem que é considerado o pai da aviação. Ontem à noite, em palestra realizada na Aliança Francesa, em Curitiba, algumas delas foram reveladas pelo ex-oficial da Aeronáutica e professor da UFPR, Átila José Borges. Em entrevista a O Estado, ele falou sobre a notoriedade de Santos Dumont e sobre as significativas modificações que o mesmo trouxe à humanidade.

“Santos Dumont foi uma personalidade extraordinária, que durante a vida chegou a ser mais valorizado na França, para onde foi estudar mecânica, do que no Brasil, local onde nasceu. Era um homem pequeno, com 1,50 metro de altura e 49 quilos, mas que sonhava grande e estava sempre elegante. Foi uma pessoa notável, independente da invenção do 14 Bis”, declarou.

Entre as curiosidades da vida de Santos Dumont reveladas pelo professor, estão o fato de que, aos 26 anos de idade, ele já tinha conquistado dois monumentos em sua homenagem na França. Naquele país, havia até um pãozinho em formato de balão que levava seu nome e as mulheres costumavam usar véus com bordados de suas invenções. Filho de pai francês e mãe brasileira, Santos Dumont começou a se interessar por mecânica aos doze anos de idade, no início de sua adolescência.

Naquela época, segundo Átila, o então garoto dirigia locomotivas dentro da fazenda de seu pai, em Ribeirão Preto (SP), dentro da qual passavam oitenta quilômetros de trilhos de trem. Aos 18 anos, foi emancipado pela família e viajou para a Europa justamente com o objetivo de aprender mais sobre mecânica. Embora tenha sido o único de oito filhos a não concluir um curso superior, se dedicou intensamente aos estudos, sendo responsável por um total de 26 invenções, às quais criou sempre às próprias custas, sem qualquer financiamento externo.

Aviação

No que diz respeito à aviação, Santos Dumont foi o único a elaborar, desenhar, construir e voar em suas aeronaves, fazendo tudo praticamente sozinho. Seu primeiro balão, que recebeu o nome de Brasil, foi criado em 1901 e já considerado revolucionário. “O balão Brasil tinha seis metros de diâmetro e 110 metros quadrados, tendo um décimo do tamanho dos balões considerados comuns no início do século XX. Com ele, Santos Dumont usou pela primeira vez seda japonesa em balões e modificou a engenharia balonística da época”, contou o professor.

Algum tempo depois, o aviador criou o primeiro balão dirigível, de onde derivou o Zeppelin. Mais tarde, soube de um concurso em Paris que daria um prêmio de cem mil francos a quem conseguisse sair de um determinado local, contornar a Torre Eiffel e retornar ao mesmo ponto em trinta minutos. Com seu sexto dirigível, realizou a façanha em 29 minutos, distribuindo o dinheiro conquistado entre mecânicos e pessoas carentes. Após, inventou o dirigível número sete e o número nove, por superstição não dando a este o número oito. “Com o nove, Santos Dumont descia em frente de seu apartamento, em Paris, causando grande alvoroço. Também foi com ele que levou a primeira mulher ao ar, Aída Acosta, ensinando-a a pilotar”.

Do dirigível treze, o aviador passou diretamente do balonismo para a forma aerodinâmica com a invenção do 14 Bis. Com este avião, em 23 de outubro de 1906, ele realizou o primeiro vôo mecânico da história da humanidade, em Bagatelle, na França. Participando de um novo concurso, que premiaria quem conseguisse voar uma distância de 25 metros a dois metros do chão, ele percorreu com o 14 Bis um total de sessenta metros, a uma altura de seis. “O vôo aconteceu em público e foi bastante noticiado. Já o segundo vôo do 14 Bis foi realizado em 19 de novembro do mesmo ano, quando Santos Dumont percorreu 220 metros”.

Na opinião do professor, a façanha de 23 de outubro tira qualquer dúvida de que o avião não teria sido inventado por Dumont, mas sim pelos irmãos americanos Wright. “Os Wright quiseram para si o título de pais da aviação defendendo um vôo realizado por eles em 1903. Porém, aquele vôo foi catapultado e não mecânico e os irmãos se utilizaram de trilhos para ir ao ar. Em sua última viagem ao Brasil, realizada recentemente, Bill Clinton reconheceu que o brasileiro foi o inventor do avião”.

Paraná

O turismo paranaense e mesmo nacional também deve muito a Santos Dumont. Tanto que Átila está encabeçando uma campanha para que o aviador seja intitulado “Pai do Turismo Brasileiro”. O professor conta que, em 1916, Dumont foi convidado a conhecer as Cataratas do Iguaçu, no lado argentino. Enciumados, os brasileiros o convidaram a ver a vista das cataratas também no Brasil. Admirado com a beleza das mesmas, ele ficou indignado ao saber que a área onde elas se encontravam eram de propriedade de um uruguaio, Jesus Val. Percorrendo grande parte da distância no lombo de um cavalo, viajou até Curitiba e realizou um protesto, pedindo ao então presidente do Estado do Paraná, Afonso Camargo, que tomasse providências. “Três meses depois, graças aos esforços do aviador, a área das cataratas foi transformada em Parque Nacional do Iguaçu”.

Atualmente, o coração de Santos Dumont, retirado por um médico legista logo após a morte do aviador e sem o conhecimento da família do mesmo, está guardado como relíquia dentro de uma esfera de cristal no Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro.


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