Ficou chato ser moderno

Redação O Estado do Paraná Publicação 04/06/2006 às 00:00:00 Atualizado 19/01/2013 às 21:02:14

Ricardo Pimentel

Na adolescência descobri a poesia. Ela me chegou pelas mãos da Profª. Atsuko. De família japonesa, tinha postura rígida, quase dura. A antítese do chamado "novo professor"(seja lá o que isso quer dizer). Professora de Língua Portuguesa, ela amava a literatura. Com ela li pela primeira vez Carlos Drummond de Andrade cuja poesia me acompanha desde então. A ele acrescentei Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Paul Valéry, Adélia Prado, Paulo Leminski, Cora Coralina, Brecht, Mário Quintana, Baudelaire e tantos outros.

A poesia é um baú de tesouros que carrego comigo, e do qual vez ou outra retiro alguma preciosidade para me ofuscar e, paradoxalmente, iluminar o caminho.

O ato de escrever não está dissociado do ato de ler. Antes de iniciar esse texto busquei meu volume da Antologia Poética de Drummond. Sem capa, marcado pela vida, procurei nele alguma inspiração e fui tocado por essas palavras:

"E como ficou chato ser moderno.

Agora serei eterno."

Lembrar da Profª. Atsuko foi inevitável: ela é eterna em minha vida pois me deu algo que nenhuma tecnologia pode me dar e nem tirar. Definir o enfoque desse texto foi uma conseqüência.

O papel do marketing em uma instituição de ensino é ajudar a construir uma relação duradoura com alunos, pais e sociedade em geral. O professor é a base de toda e qualquer relação duradoura que possa ser estabelecida entre a escola e os grupos atingidos por ela, e é assim a base de qualquer estratégia de marketing. Qualquer investimento em marketing que ignore isso é um mal investimento. O gestor de instituição educacional que se pretenda atualizado com as necessidades que o mundo impõe e que não percebeu isso, encontra-se na caverna de Platão, relacionando-se com sombras. E Platão que me perdoe a analogia!

Você leitor, talvez preveja uma chorosa cantilena sobre as injustiças cometidas contra essa classe de homens e mulheres abnegados denominados professores. Engana-se.

Levanto aqui uma discussão sobre do papel do professor na produção do serviço educacional de qualidade com base na construção de vínculos sólidos com alunos, e sobre um tipo de investimento nesse profissional que tem estado fora das nossas "semanas pedagógicas". Na verdade, nem mesmo nós, professores, temos enfrentado essas questões.

Em seu livro O desenvolvimento da personalidade, Jung diz que se os vínculos emocionais e afetivos entre o aluno e o professor forem bons, o fato do método didático corresponder ou não às exigências mais modernas será menos decisivo para se alcançar bons resultados. E que não se confundam esses vínculos com a busca de uma falsa igualdade entre aluno e professor. É na diferença que está a riqueza dessa relação.

Quer sejam crianças ou adultos, os alunos identificam no professor a responsabilidade pela condução do processo educacional. Esse processo é coletivo do ponto de vista do professor, mas individual do ponto de vista do aluno. "O meu professor é responsável pelo meu desenvolvimento", dizem os alunos. Eis o desafio do professor: atuar no coletivo sem perder de vista o que é singular e individual.

Dia desses, uma companheira de sala dos professores chamava a atenção para o stress vivido em sala de aula. Creio que parte desse stress nasce desse papel do professor e de suas limitações para exercê-lo.

Como investir no professor para melhorar a qualidade e a durabilidade dos serviços prestados por nossas escolas? Temos que educar os educadores e sensibilizar os gestores.

Não! Não me venham com técnicas e tecnologias. Eu desprezo as fórmulas de como ser "um professor brilhante". Não é apenas com resultados imediatos que eu me preocupo, mas com o significado que terei na vida de meus alunos daqui a 5, 10, 20 anos!

Educar os educadores é oferecer recursos que nos tornem emocionalmente mais saudáveis.

É investir no autoconhecimento baseado na análise profunda de nossos medos, temores, incertezas, raivas, intolerância a frustrações e demais sentimentos "demasiadamente humanos". É não varrer para debaixo do tapete sentimentos que nos perturbam só porque não são condizentes com a "postura do professor moderno". É saber que só conseguiremos ajudar nossos alunos a superarem suas limitações coletivas e individuais, quando entendermos melhor as nossas próprias limitações e carências.

Enfrentar esse desafio é tarefa de todos os que estão envolvidos com a gestão de escolas e de processos educacionais.

Talvez um dia possamos entender porque alguns professores são eternos em nossas vidas, como a Profª. Atsuko é na minha. Talvez um dia sejamos uma pedra preciosa de algum tesouro e possamos iluminar caminhos. Talvez um dia sejamos eternos na vida de alguém.

Ricardo Pimentel é consultor de marketing e professor da FAE Business School/UNIFAE e da Faculdade OPET (pimentel.ric@uol.com.br)


Publicidade

Publicidade

Comente a notícia